• Bia Figueiredo

Telefone sem fio - poema de Ana Martins Marques

Minha casa são meus retratos

minha casa é meu martelo

minha casa é meu manuscrito

minha casa é meu colar

de contas verdes de vidro

tiraram-me tudo

e no entanto me sobra muito

minha casa é teu cabelo cinza

meu casaco de feltro

meu amor esfacelando-se

minha casa é meu cansaço, minha miopia

minha artrite, a criança que fui e sigo

sendo, minha casa é a memória da casa

demolida, o cão que eu não tive

a parte que não entendo

no poema que traduzi

minha casa é o mar

aberto

minha casa é aquele mergulho aquele dia

quando o pequeno cardume de peixes listrados

de amarelo atravessou ali bem na nossa frente

minha casa é a árvore

em frente à casa

o muro contra o qual

nos beijamos

minha casa é minha coleção

de cacos

meu hábito de perder

as chaves

a pequena canção

de antes de eu nascer

o modo como cresci

e aquela canção não cresceu

minha casa é meu passaporte

minha casa é minha língua

estrangeira

fronteiras que me

cruzaram

minha casa é meu peso

minha idade

o nome da cidade

em que te conheci

a roupa que então vestias

sim

onde moro

ainda

minha casa é o cão de rua

que não é meu, que apenas acontece de estar ali

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